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© 2018 Dimas Barbosa Araujo

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  • DIMAS BARBOSA ARAUJO

O último grito.

Updated: Jul 8, 2019

O homem alto e soturno subiu ao topo do prédio mais alto da cidade mais alta. Não olhou para baixo. Tampouco observou as nuvens diáfanas feitas de algodão que ora cobriam e ora mostravam a lua cheia num balé de sedução.

As luzes da cidade mais alta tremeluziam em inebriante frequência juntando-se ao barulho produzido por canos de descarga dos veículos que passavam em velocidade, ao som da música estridente ouvida não só pelo garoto baixo de boné virado para trás que carregava um aparelho maior do que ele mesmo, aos cheiros variados dos food trucks que disputavam cada milímetro de espaço no meio fio; nada, nada mesmo, em toda aquela diversidade material, ou etérea, chamava a atenção do homem alto e soturno, em seu casaco preto. Para ele tudo era indistinto e se somava, formando uma massa amorfa, distante e sem qualquer interesse.

Então, ele subiu no guarda-corpo à sua frente e atingiu a parte mais alta do prédio mais alto da cidade mais alta. Quase podia tocar as nuvens e na lua que teimavam em flertar pouco se lhes dando para quem não estava convidado para participar de sua dança particular e sensual; mas o homem alto, soturno, de terno preto e de chapéu igualmente preto nada disso percebia.

Pela primeira vez olhou para o solo longínquo. E se lançou como se fosse um míssil no vazio da existência. Os segundos que levaria para chegar ao chão seco que logo ficaria molhado de vermelho pareceram eternos . No meio do caminho entre aquele pedaço de céu e seu destino final, teve vontade de voltar, mas não era possível porque nem a física deixaria e, tampouco, era o que queria de verdade. Queria cair, simplesmente cair.

O homem alto, soturno, com seu casaco preto, com chapéu igualmente preto que agora se desprendera da cabeça e com suas luvas de um quase branco estranho e destoante, como num espasmo tão involuntário quanto libertador começou a gritar, a gritar, a gritar.

Enquanto gritava seu cérebro prestes a ter sua missão encerrada, cumpria sua última tarefa resgatando as lembranças de todos os gritos que dera antes desses; gritos de desespero, de dor, de solidão e de pedido de socorro, gritos que jamais foram ouvidos por quem quer que fosse. Talvez este último grito, pensou enquanto de seu corpo ainda pulsava a vida breve que ainda lhe restava, finalmente fosse ouvido.

O máximo que as pessoas ouviram foi um baque no asfalto seco e que agora não estava mais seco. E o máximo que perceberam foi o objeto não identificado que quase lhes caíra sobre as cabeças. Passado o susto inicial e rapidamente desfeito, continuaram seus caminhos rumo a suas casas, seus encontros, seus chopes com batatas fritas, seus motéis e seus bordéis.

E o homem que ninguém saberia que fora soturno, com um casado preto empapado de vermelho, sem chapéu sem luvas, sem sapatos, sem meias e agora sem rosto, nunca soube se seu último grito por ninguém .Não estranharia se tivesse visto que não fora.

Foi enterrado pelos funcionários prefeitura da cidade mais alta, entediados de tanto enterrar, na cova mais rasa do mundo mais raso de que jamais se ouviu falar.


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