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© 2018 Dimas Barbosa Araujo

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  • DIMAS BARBOSA ARAUJO

Acharam a cara do diabo. Só que não.

Updated: Jul 1, 2019


Muitos empresários da categoria estão furiosos, para ser elegante, com essa história de que as empresas de transporte são as verdadeiras mentoras do atual movimento de paralisação do Brasil. Antes de responder com o fígado, entretanto, vamos tentar um outro tipo de análise.

Nela cito alguns jornalistas e veículos sérios como exemplo, não numa tentativa boba de fulanizar a coisa, mas com o propósito de mostrar que até de cabeças sadias podem sair besteiras surpreendentes, quando a grande inimiga da perfeição se manifesta e ganha prioridade.

Espremido contra todas nas paredes o governo vendeu a notícia de que encontrara finalmente a cara do demônio que esculpiu ou ajudou a esculpir o movimento dos caminhoneiros: as “grandes empresas de transportes” que estariam manipulando os pobres trabalhadores. Parcela importante da imprensa foi atrás desse trio elétrico desligado, comprou e vendeu a ideia. Viva, agora o diabo tem nome, endereço e siglas!

A divulgação pelo Fantástico deste domingo (27) de uma lista do CADE contendo entidades “suspeitas” de causar todo esse alvoroço, sedimentou essa nova verdade, no melhor estilo George Orwell.

Até jornalistas bem informados e competentes como Gérson Camarotti caíram nesse engodo. Embora em seu blog ele apenas reproduza informações oficiais e públicas de autoridades do governo, algumas suas análises na TV deixam claro que ele simplesmente comprou o que lhe foi vendido sem checar direito a informação segundo um dos princípios básicos do jornalismo: quando, onde e por que? Isso pode ser constatado, apenas como exemplo, durante uma de suas chamas na Globonews, que o site da emissora batizou de Camarotti: Planalto reconhece que demorou para perceber gravidade de movimento. Como a gente sabe que os fatos não são estes infere-se, repito, que o jornalista, talvez até de boa-fé, teria ouvido , apenas o que dizia, segundo suas próprias palavras, o Palácio do Planalto. Mas o caso do Camarotti é pecado venial se comparado com outras barbaridades que estão por aí; interpretou a coisa rápido demais e escorregou nela.

Ainda na linha do bem intencionado útil, o Arnaldo Jabor fez um comentário hoje na rádio CBN intitulado “a greve não pode ser um instrumento de morte para o país todo” que aponta as grandes empresas como beneficiárias desse negócio todo. Para ser honesto, Jabor faz uma análise correta da situação, das razões que levaram o País a isso, mas na hora de ganhar uma “nota 10”, pisa numa casca de banana sobre o solo ensaboado e diz: “Todos perdem, mas esses empresários podem ganhar com a greve, mesmo que ela provoque uma quebra de bilhões de Reais para o País pagar; ou seja, nós””. Isto é, até o Jabor pegou a onda (errada). Pode isso Arnaldo?

Enfim, coisas como essas nem podem ser consideradas fake news; parece “foca news mesmo”.

Isso só mostra, como gente séria e isso não inclui apenas os jornalistas, acaba por ser engolida pela onda do fast food da informação; produz-se rápido, consome-se com pressa, sem prestar atenção aos ingredientes e que depois faz um mal desgraçado.

Felizmente há os bem informados, como a Eliane Catânhede, da própria Globonews (e do Estadão) que teve uma visão mais lúcida da coisa ao identificar acertadamente, em seu artigo Escolhendo o inimigo” que “quase ninguém percebeu, mas o governo Temer e o PT assumiram um discurso parecido diante do caos que a paralisação dos caminhoneiros gerou no País inteiro. Para os dois ex-parceiros de poder, agora inimigos ruidosos, o protesto dos caminhoneiros é “justo” e os verdadeiros culpados são os donos das transportadoras. A uns, solidariedade; aos outros, a lei.” A Eliane, que já tinha feito comentário parecido no “Em pauta”, como sempre não decepcionou.

Mas para quem quer saber de verdade de como o mercado de transportes funciona e porque seria impossível um locaute nessa área, é importante ler a matéria “Hipótese de locaute para a greve dos caminhoneiros esbarra em pulverização”, publicada no Estadão. Se todo mundo tivesse seguido pelo mesmo caminho muitos não teriam, a não ser por má fé, engolido, para ficar no jargão jornalismo, essa grande e indigesta barriga.

Agora, uma coisa precisa ser dita: será que afinal, há algum empresário metido nisso? Impossível afirmar sem fatos que comprovem ou não essa tese; mas, claro, de maneira isolada, pode até ser que tenha. Uma coisa, entretanto, é certa: pela tal lista do CADE, pelo menos no que diz às três entidades citadas, nem ele e nem os serviços de informação do governo souberam onde procurar.

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